segunda-feira, 1 de agosto de 2011

... Line...


Algumas palavras de quem passa por isso há um bom tempo:
É uma ilusão.
Você só quer fazer a dor parar do jeito que te parece mais simples.
Mas ela nunca pára.
As lágrimas não rolam mais.
E tudo passa a perder o sentido.
O sangue escorre pelo seu corpo.
Suja a roupa, o chão, mas você já não se importa.
As lágrimas voltam e se misturam com o sangue.
Seu corpo fica mole.
Depois começa a coçar.
Você coça e abre os ferimentos.
Ai vem a vontade de fazer tudo de novo.
Passa tempos sem o fazer e se sente livre disso.
Mas é como uma praga, não pára.
Com o tempo os ferimentos ficam maiores, mais profundos.
Isso se torna uma droga, um vício.
As cicatrizes não somem.
Você faz de tudo para cobri-las.
Chega a ter medo de que as vejam.
Tem medo que os outros se afastem, família, amigos, seu amor.
Perde a liberdade de usar qualquer roupa.
Sempre repara nos corpos das pessoas ao seu redor.
Não encontrando as marcas nos outros, você sente vergonha.
Se sente derrotado.
E faz de novo.
Cada vez pior.
Com consequências piores.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Nem todo vampiro chupa sangue

Faz alguns anos, li a tal da Bíblia Satânica do Anton LaVey, mas só agora fez sentido certos trechos desse tal livro.
A parte que mais chamou a minha atenção foi a dos "vampiros psíquicos", cujos já me deparei com alguns ao longo da vida... e acredito que muita gente também os conheça embora não os reconheça.
Talvez o que eu tenha lido seja um grande clichê, mas tem sua relevância a partir de que se toma por verdade esse perfil psicológico que na minha opinião é uma praga, um parasita social.
Flavio Gikovate já citou esse tipo de gente em seu livro "O Mal, O Bem e Mais Além - Egoístas, Generosos e Justos".
Segue então, trechos do capítulo que fala dos vampiros sociais:


Vampiros psíquicos são indivíduos que drenam dos outros sua energia vital. Este tipo de pessoa pode ser encontrado em todas as avenidas da sociedade. Eles não desempenham nenhum propósito útil em nossas vidas e não têm nenhum desígnio de amor ou amigos verdadeiros.
Até agora nos sentimos responsáveis pelos vampiros psíquicos sem saber o porquê.
Se você pensa que pode ser a vítima de uma determinada pessoa, há algumas simples regras de que o ajudará a tomar uma decisão.
Há uma pessoa que você freqüentemente recebe ou visita, mesmo que realmente não queira, porque você sabe que se sentirá culpado se não o fizer?
Ou você se descobre freqüentemente fazendo favores para alguém que nunca vem adiante e pede, mas sugere?
Freqüentemente o vampiro psíquico usará a psicologia reversa, dizendo: "óh, eu não posso pedir a você por isto" - e você, em retorno, insiste em fazê-lo. O vampiro psíquico nunca exige nada de você. Isto pareceria muito presunçoso.
Eles simplesmente deixam os seus desejos serem conhecidos de maneiras sutis que impedirá que eles sejam considerados pestes. Eles "nunca pensariam em impor" e são sempre capazes de aceitar a sua sorte, sem a menor importância - externamente! Seus pecados não são de ação, mas de omissão. É o que eles "não"dizem, não o que eles querem dizer, que faz você sentir muito responsável por eles.
Eles também são muito astuciosos em abrir suas pretensões com você, porque eles sabem que você se ressentiria disto, e teria uma razão tangível e legítima para condená-los.
Muitos vampiros psíquicos são inválidos (ou pretendem ser) ou são "mentalmente e emocionalmente perturbados". Outros podem simular ignorância ou incompetência e então, sem compaixão, ou mais freqüentemente, com irritação, você fará coisas para eles.
Muitas pessoas aceitam passivamente estes indivíduos viciosos de fisionomia de valor somente porque suas
manobras insidiosas nunca foram apontadas. Eles somente aceitam estas "pobres almas" como sendo menos
afortunadas do que eles, e sentem que precisam ajudá-los do modo que puderem. É um senso equivocado de responsabilidade (ou infundado senso de culpa) que nutre bem os "altruísmos" em cima da festa destes parasitas!
O vampiro psíquico consegue existir porque escolhe engenhosamente pessoas conscientes, responsáveis,
como vítimas - pessoas com grande dedicação pelas suas "obrigações morais".
Em alguns casos nós somos vampirizados por grupos de pessoas, assim como por indivíduos. Cada organização construída pelo capital, seja ela uma fundação de caridade, conselho comunitário, religioso ou
associação fraterna etc., cuidadosamente seleciona a pessoa que é habilidosa em fazer os outros se sentirem
culpados pelo seu presidente ou coordenador. O trabalho do presidente é nos intimidar para abrir primeiro nossos corações e depois nossas carteiras, para o recipiente da "boa vontade" - nunca mencionando que, em muitos casos, seu tempo não é dado desinteressadamente, mas que eles estão ganhando um gordo salário pelos suas "obras nobres". Eles são mestres em manipular a simpatia e consideração de gente responsável. Freqüentemente vemos pequenas crianças que são enviadas adiante pelos autohonrados.
Há, é claro, pessoas que não se sentem felizes a menos que dêem, mas muitos de nós não se encaixa nesta categoria. Infortunadamente, nós estamos freqüentemente nos pondo em fazer coisas que genuinamente não
sentimos que deveria ser exigidas de nós. Uma pessoa consciente acha que é muito difícil decidir
entre caridade voluntária e imposta. Ela espera fazer o que é certo e justo, e acaba perplexo tentando decidir exatamente quem ela deveria ajudar e que grau de ajuda deveria corretamente ser esperada dela.
Cada pessoa precisa decidir por si mesma qual é a sua obrigação para com seus respectivos amigos, família e comunidade. Antes de dar o seu tempo e dinheiro para aqueles de fora, sua família imediata e seu fechado círculo de amigos, ele precisa decidir do que pode dispor, sem privar aqueles que são mais chegados a ele.
Quando tomar essas coisas em consideração ele precisa estar certo de incluir a si mesmo entre aqueles que
significam muito para si. Ele precisa avaliar cuidadosamente a validade do pedido e a personalidade e
motivos de cada pessoa que lhe pede alguma coisa.
É extremamente difícil para uma pessoa aprender a dizer "não" quando em toda a sua vida ele tem dito "sim".
Mas a menos que ele espere ter vantagem constantemente, deve aprender a dizer "não" quando as circunstâncias justifiquem fazê-lo. Se você permiti-los, os vampiros psíquicos gradualmente se infiltrarão no
seu dia-a-dia até que você perca a sua privacidade - e seu sentimento constante a respeito deles esvaziará você de toda a ambição.
Um vampiro psíquico sempre selecionará a pessoa que é relativamente capaz e satisfeita com a vida - uma
pessoa que é bem casada, contente com o seu trabalho, e geralmente bem ajustada com o mundo à sua volta - para se alimentar dela. O fato genuíno de que o vampiro psíquico escolhe, para vitimar, uma pessoa feliz mostra que ele está carente de todas as coisas que sua vítima tem; ele fará qualquer coisa para trazer encrenca e desarmonia entre sua vítima e as pessoas que lhe são caras.
Com receio de que você confunda amor desesperado (que é uma coisa muito egoísta) com vampirismo
psíquico, a vasta diferença entre as duas precisam ser esclarecidas. O único caminho para saber se você está sendo vampirizado é comparar o que você dá à pessoa em relação ao que ela lhe dá em troca. Quando eles sentem que você está saindo de suas presas duas coisas acontecerão.
Primeiro, eles agirão "apertando", esperando que seu velho sentimento de dever e simpatia retornarão, e
quando (e se) não acontece, eles mostrarão suas cores verdadeiras e se tornarão irados e vingativos.
Geralmente, os vampiros psíquicos concebem que seus métodos foram descobertos e não pressionam o resultado. Ele não continuará a perder o seu tempo com você, mas se moverá para sua próxima vítima
insuspeitada.
Há momentos, contudo, quando o vampiro psíquico não libera sua presa tão facilmente, e fará tudo para
atormentar você. Eles tem todo o tempo para isto porque, quando uma vez rejeitados, eles negligenciarão
tudo (ou seja, o que pouco tem) para devotar seus momentos de vigília em planejar a vingança para o que
eles se sentem autorizados.
Não desperdice o seu tempo com pessoas que finalmente destruirão você, mas se concentre naqueles que apreciarão sua responsabilidade por eles, e, do mesmo modo, sentirão responsáveis por você.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Gato...


Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
 
Bom servo das leis fatais  
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais  
E sentes só o que sentes.
 
És feliz porque és assim,  
Todo o nada que és é teu.  
Eu vejo-me e estou sem mim,  
Conheço-me e não sou eu.
 
*Fernando Pessoa*

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Tabacaria


    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    *Fernando Pessoa*