sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Tabacaria


    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    *Fernando Pessoa*

    quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

    My hope... the destroyer





    Weeping with you. Arms around them
    Flowing with you. Without your men
    Keeping with you. Feeling their shiver
    Drowning with you. Deep in this river

    Tired and lonely. Sitting and staring
    Weak and filthy. No longer caring
    Wasting to nothing. The rubble of you
    Hoping for something. Poison where love grew

    People. Feel her mind
    She is broken
    People. Fill your eyes
    Her body is broken

    Leave me be, with my memories
    I can still see all the lovers of me
    I still know those feelings

    You're still mine, my lover
    I watch over you
    Goodbye my lover
    No sorrow. Please, no tears

    sábado, 11 de dezembro de 2010

    My shame




    Ever grey
    Every day
    When it rains
    I feel the shame
    It's just the same
    You can't feel my pain

    (Por Aneshka)

    (desenho P.I.)

    terça-feira, 7 de dezembro de 2010

    Se você me odeia...




    Vai ver é porque sou mal educada
    Vai ver é porque quando eu bebo eu sou uma e quando acordo sou outra
    Vai ver é porque eu manipulo, minto e crio situações dramáticas
    Vai ver é porque eu sou chata pra caralho!
    Vai ver é porque eu entupo as pessoas de poemas, músicas e abraços inesperados
    Vai ver é porque eu brigo com quem eu gosto
    Vai ver é porque eu amo quem não me ama.

    (Por Aneshka)

    domingo, 5 de dezembro de 2010

    Um sonho lúcido



    E sabe o que é pior?
    Que amanhã eu ainda vou estar aqui
    De todas as vezes em que me matei, nenhuma você me salvou

    E tudo se repete
    E eu ainda te amarei
    (mesmo que em sonhos)

    Eu te sinto
    Tanto quanto te minto
    Porque contigo eu me permito
    Estar plenamente em absinto

    No mais tudo consiste
    Em meros palpites
    Mesmo que eu acredite
    Que você, só pra mim existe.

    (Por Aneshka)

    terça-feira, 9 de novembro de 2010

    Deep Blue




    Eu não espero, nem quero que gostes de mim à maneira que gosto de ti.
    Pois gosto tanto de ti, que não espero, nem quero que sintas essa angústia, esse "não saber o quê fazer".
    Nunca vi o amor como uma coisa boa, e de fato ele não é.
    Eu não tenho amor pra te dar.
    A tua "não presença" me incomoda, no entanto, não sinto a tua falta. Talvez eu não sinta falta de nada. Poderia alguém sentir falta de algo que nunca teve?
    Mas eu espero e eu quero, que tu me enxergues, que vejas algo além dos cinco sentidos. Quanto mais eu tento mostrar, mais misteriosa eu fico. Não sei me expressar; sou ambígua e talvez isso faça parte de todo encantamento.
    Sou um lago azul, profundo e gelado. Se tu, por ventura caíres nesse lago, só sairás morto ou muito debilitado; então aproveite cada segundo em quem minha água entra no teu corpo... te consumindo e carregando para as profundezas do sono eterno.

    (Por Aneshka)

    domingo, 31 de outubro de 2010

    A Genialidade da Multidão





    Há bastante deslealdade, ódio,
    violência,
    Absurdo no ser humano comum
    Para suprir qualquer exército em qualquer dia.
    E O Melhor No Assassinato São Aqueles
    Que Pregam Contra Ele.
    E O Melhor No Ódio São Aqueles
    Que Pregam AMOR
    E O MELHOR NA GUERRA
    –FINALMENTE–SÃO AQUELES QUE
    PREGAM
    PAZ

    Aqueles Que Pregam DEUS
    PRECISAM de Deus
    Aqueles Que Pregam PAZ
    Não têm paz.
    AQUELES QUE PREGAM AMOR
    NÃO TÊM AMOR
    CUIDADO COM OS PREGADORES
    Cuidados com os Sabedores.

    Cuidado
    Com Aqueles Que
    Estão SEMPRE
    LENDO
    LIVROS

    Cuidado Com Aqueles Que Detestam
    Pobreza Ou Que São Orgulhosos Dela

    CUIDADO Com Aqueles Que Elogiam Fácil
    Porque Eles Precisam De ELOGIOS De Volta

    CUIDADO Com Aqueles Que Censuram Fácil
    Eles Têm Medo Daquilo Que Não Conhecem

    Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantes Multidões; Eles Não São Nada Sozinhos

    Cuidado
    Com O Homem Comum
    Com A Mulher Comum
    CUIDADO Com O Amor Deles

    O Amor Deles É Comum, Procura O Comum
    Mas Há Genialidade Em Seu Ódio
    Há Bastante Genialidade Em Seu
    Ódio Para Matar Você, Para Matar
    Qualquer Um.

    Sem Esperar Solidão
    Sem Entender Solidão
    Eles Tentarão Destruir
    Qualquer Coisa
    Que Seja Diferente
    Deles Mesmos

    Incapazes
    De Criar Arte
    Eles Não Irão
    Compreender Arte

    Eles Vão Considerar Sua Falha
    Como Criadores
    Apenas Como Uma Falha
    Do Mundo

    Incapazes De Amar Completamente
    Eles Vão ACREDITAR Que Seu Amor É
    Incompleto
    E ELES VÃO ODIAR
    VOCÊ

    E Seu Ódio Será Perfeito
    Como Um Diamante Brilhante
    Como Uma Faca
    Como Uma Montanha
    COMO UM TIGRE
    COMO Cicuta

    Sua Mais Fina
    ARTE

    (Charles Bukowski)